A origem do termo anorexia é grega e significa ausência de apetite.
Podemos definir a anorexia como uma necessidade obsessional de emagrecer. Uma necessidade, e não uma vontade somente. Uma força inconsciente e incompreensível que leva à jovem a restringir sua alimentação, mesmo que seu peso ou gordura corporal não justifiquem tal atitude. As pacientes que apresentam o distúrbio querem emagrecer porque rejeitam seu corpo, se sentem mal, gordas, feias. Ela têm uma percepção deformada de sua aparência julgando-se obesas mesmo quando pesam 35 quilos e medem 1.65m de altura. Restringem enormemente sua alimentação, indo contra as necessidades de seus organismos. É importante ressaltar que, ao menos no início do distúrbio, a paciente tem fome e luta contra ela.
A anorexia não começa quando se quer perder peso, mas sim quando, sem se dar conta, a pessoa não consegue fazer nada além de emagrecer, resultado do pânico e da angústia de engordar e se tornar obesa. Todos os esforços são empreendidos para intensificar a perda de peso. A hiperatividade física até a exaustão auxilia essas jovens a queimar mais calorias e tornar a perda de peso mais eficaz, e às vezes se torna para alguns um comportamento incontrolável.
Os exercícios preferidos são os aeróbicos, corridas, abdominais e flexões. Normalmente, a atividade fisíca é solitária, tem caráter obsessivo e é realizada regularmente com, uma sequênica rígida. Há uma estreita ligação entre se alimentar e se exercitar: o paciente se torna merecedor da comida se fizer bastante exercício, ou, ao contrário, terá que realizar seções extras se comer mais do que deve.

CARACTERISTICAS CLINICAS

Os comportamentos mais observados nos pacientes com anorexia são: a recusa em comer ou uma demora injustificada para terminar uma refeição, o fato de esconder ou jogar fora os alimentos, o uso excessivo de condimentos ou sal, rituais alimentares e aversão a certos alimentos ou grupos alimentares.
Em resposta à desnutrição, a jovem apresenta distúrbios orgânicos, como amenorréia e osteoporose, maior tendência a infecções e desordens digestivas, além de problemas psicológicos, como depressão, ansiedade e flutuações no humor.
Apesar de que o comportamento do indivíduo com anorexia é direcionado em linhas gerais à dimunuição da ingestão alimentar e/ou ao aumento do gasto energético, nem sempre isso acontece da mesma maneira.
Existem 2 tipos principais de anorexia: a restritiva, marcada por uma restrição alimentar severa associada ou não à hiperatividade fisica; e a purgativa, onde a paciente acredita consumir uma quantidade de alimentos maior do que necessita e desenvolve comportamentos compensatórios, como indução ao vômito, consumo de laxantes ou diuréticos.

Métodos Restritivos

As restrições alimentares podem ser quantitativas: o paciente diminui o tamanho das porções a serem consumidas, esconde ou estoca os alimentos dentro de armários ou cofres. Ele pode também trapacear e dar sua comida ao cachorro. Muitos selecionam seus alimentos em função da qualidade do que vai ser consumido, eliminando certas categorias inteiras, como as gorduras ou as carnes, por exemplo. Normalmente são aceitas a frutas (salvo algumas excessões, como a banana, a manga e o abacate), os legumes verdes e os laticíneos desnatados. Grande parte dos anoréxicos se tornam vegetarianos.
À mesa, os pacientes cortam os alimentos em porções minúsculas para disfarçar a quantidade irrisória, escolhem utensílios inapropriados (talheres de crianças ou de sobremesa), comem extrememente devagar e contam calorias. Esse comportamento pode resultar em conflitos com os familiares, que associados à ansiedade, levam o paciente a preferir se alimentar sozinho.
Muitos anoréxicos se envolvem com receitas e com a preparação de pratos para toda a família, apesar de não se darem ao direito de degustarem o que preparam. Em diversos casos observados, são os membros da familia e os animais de estimação que engordam enquanto a paciente continua a emagrecer. Outros pacientes desenvolvem o habito de consumir gomas de mascar em excesso, substituindo a alimentação por elas.

Métodos purgativos

Em adição à restrição alimentar, muito pacientes induzem o vômito e abusam de diurétifcos e laxantes acreditando que com isso aumentariam as possibilidades de perda de peso. Essa é a forma mais perigosa da anorexia, uma vez que esse tipo de comportamento causa graves complicações orgânicas.
Primeiramente é necessáio adquirir uma certa técnica para provocar o vômito, como colocar os dedos na garganta. Mas apó algumas tentativas o paciente pode “aprender” a vomitar quase que espontaneamente. Já os laxantes são utilisados com a desculpa de combater a prisão de ventre (comum e decorrente da pouca ingestão alimentar), mas a intenção real é causar a diarréia. Apesar de acreditarem que a diarréia possa prevenir a absorção de calorias, a perda de peso é o resultado da desidratação (perda de liquidos) causada por esse tipo de medicamento. O mesmo acontece com os diuréticos. O pior é que, com o passar do tempo, são necessárias doses cada vez maiores para produzir o efeito desejado.
Há muita confusão entre a forma purgativa da anorexia e a bulimia, e os pacientes anoréxicos purgativos muitas vezes dizem que têm bulimia, e não anorexia. Ele podem alterar períodos prolongados de extrema restrição alimentar com episodios de perda de controle, abandonando a rigidez de seus esquemas alimentares auto-impostos. A experiência de haver perdido o controle, ingerindo uma maior quantidade de alimentos do que eles se dão ao direito ou do que desejam, faz com que eles acreditem que tiveram um episodio de compulsão alimentar em função de seus conceitos de uma alimentação normal deturpados.Segundo dados clínicos, somente um pequena parte desse pacientes chega a apresentar uma verdadeira compulsão, na maioria das vezes a ruptura da dieta é minima. Como nestes casos a deficiência nutricional é de extrema importância, o diagnóstico de anorexia prevalece sobre o de bulimia. Além disso, o anoréxico tem o peso bem abaixo do normal, o que caracteriza sua condição e o difere do indivíduo com bulimia, cujo peso está quase sempre perto do esperado.
Aproximadamente 40 a 45% dos pacientes tratados por anorexia apresentam episódios de perda de controle associados aos comportamentos compensatórios de vômito e consumo de laxantes e diuréticos.

CONSEQUENCIAS ORGANICAS NA ANOREXIA

Como os pacientes que apresentam anorexia costumam negar a existência do distúrbio e os danos físicos causados por ele, muitas vezes eles vão procurar auxílio médico em razão das complicações orgânicas decorrentes, e não pela anorexia. Na maioria dos casos, as repercuções clínicas são causadas pela deficiência nutricional, e são reversíveis com o tratamento de recuperação do peso. A única excessão é o comprometimento ósseo, que veremos adiante.
As complicações são inúmeras. Explicaremos aqui as principais e mais comuns para termos uma idéia dos males que a anorexia causa em nosso organismo.

Complicações no sistema neuro-muscular

Observa-se na maioria dos pacientes uma hiperatividade motora, a diminuição na capacidade de concentração e déficits de memória. São também comuns dores de cabeça e fraqueza muscular

Complicações cardio-vasculares

As complicações cardio-vasculares em indivíduos com anorexia são freqüentes e podem causar a morte.
A bradicardia é um sintoma comum, que significa uma freqüencia cardíaca (medida no pulso, por exemplo) abaixo de 60 batimentos por minuto, seguida pela hipotensão (dimunuição da pressão arterial) e hipotensão ortostática (diminuição na pressão arterial quando se muda da posição de deitada para senatada ou em pé). Essas alterações são consequência da adaptação do organismo ao estado de inanição, e devem ser bem avaliadas, pois podem indicar a gravidade da doença, assim como a necessidade de internação hospitalar.
A deficiência de um eletrólito chamado potássio pode causar, além de cãibras, fraqueza muscular, problemas de motilidade intestinal, problemas renais e arritimia, condição essa que pode ser responsável pela morte súbita de alguns pacientes. Um exame de eletrocardiograma pode detectar a presença de arritmias, agravadas também pela deficiência de magnésio.
A deficiência de potássio está diretamente relacionada aos hábitos purgativos, ou seja, quanto mais o paciente vomita ou consome laxantes ou diuréticos, maior é a deficiênicia do mineral.
Outro distúrbio cardiovascular comum em pacientes com anorexia é o prolapso da valvula mitral, decorrente da diminuição da massa muscular do coração.
A restrição alimentar e hídrica, assim como os comportamentos purgativos podem desbalancear os mecanismos de equilíbrio dos fluidos corporais, aumentando os riscos de edemas (retenção de líquidos, inchaço), que podem permanecer por várias semanas; ou então causar desitratação (principalmente nos indivíduos que abusam de diuréticos ou laxantes)

Complicações pulmonares

Em alguns casos agudos pode ocorrer um edema agudo do pulmão, com probabilidade de falência respiratória, causada provavelmente por uma falência cardíaca ou pela diminuição da albumina. A albumina é uma proteína sintetizada no fígado. Nos casos de desnutrição, sua quantidade no sangue diminui muito.

Complicações gastrointestinais

As complicações gastrointestinais podem se manifestar em todas as porções do trato digestivo.
Um aumento da glândula parótida ou submandibular é facilmente detectado no exame clínico e largamente observado em pacientes que vomitam. É também comum, nestes casos, o desenvolvimento de uma esofagite e a deterioração do esmalte dental, que leva à hipersensibilidade a alimentos quentes ou gelados e aumenta a probabilidade de cárie dental.
O tempo de esvaziamento gástrico é aumentado, gerando desconforto e sensação de plenitude, mesmo após uma ingestão mínima. Há um aumento no tempo de trânsito intestinal e constipação, ou seja, a digestão é lenta.
As úlceras gastro-duodenais ocorrem em aproximadamente 1/6 dos pacientes. Elas podem causar sangramentos, o que pode levar à anemia. Mas os sangramentos também podem ser causados pela ruptura de vasos sanguíneos do esôfago, em função dos vômitos freqüentes.

Complicações endocrinológicas

A amenorréia, ausência de ciclos menstruais regulares, é um dos elementos diagnósticos da anorexia, e é causada por uma diminuição dos níveis de hormônios sexuais circulantes e pela desnutrição. Isso ocasiona também uma diminuição da libido (tanto no homem quanto na mulher) e da lubrificação vaginal.
Os baixos níveis de hormônios como o estrogênio e a progresterona, associados à diminuição do fator de crescimento relacionado à insulina, juntamente com a carência nutricional e o peso insuficiente são determinantes de complicações ósseas, que podem resultar em osteoporose em jovens anoréxicas.
A aquisição de massa ossea no nosso organismo ocorre da seguinte forma:
– 35% de 0 a 3 anos;
– 20% de 4 anos ao início da puberdade
– 45% na adolescência
O pico de aquisição óssea se dá alguns meses antes da menarca (primeira menstruação). Nas adolescentes, cerca de 50% da massa óssea vertebral é adquirida durante os 4 anos que sucedem a primeira menstruação. Tudo acontece, geralmente, antes dos 16 anos de idade. Coincidentemente, essa é a época onde os transtornos alimentares podem se iniciar. Como esses distúrbios interferem na regulação hormonal e na disponibilidade de nutrientes, assim como no peso corporal, o estrago na formação ossea destas jovens pode ser importante e irreversível, e dependem da idade do início do distúrbio, assim como da sua duração. Alguns estudos concluiram que o comprometimento osseo é maior em anoréxicas purgativas do que em restritivas. O tratamento mais indicado para a osteoporose de jovens com anorexia é a recuperação ponderal decorrente do equilibrio nutricional. Em estudos científicos, o tratamento com hormônios só se mostrou eficaz nos casos em que a paciente ganhava peso.

Complicações imunológicas

A desnutrição pode levar à diminuição da capacidade imunólogica dos pacientes, aumentando as chances de infecção.

Complicações dermatológicas

As alterações de pele e cabelo são comuns e facilmente identificaveis em indivíduos com anorexia. Queda de cabelo, pele seca, unhas quebradiças, acne e cianose nas extremidades (coloração azul nas pontas dos dedos) são comuns. Observa-se também uma diminuição na temperatura corporal, resultante da queda do metabolismo basal (secundária ao estado de desnutrição).
Cerca de 1/3 dos pacientes apresentam pêlos finos e longos na face, chamados de lanugo. A coloração da pele fica alaranjada, devido ao aumento da quantidade de caroteno circulante.

Complicações psicológicas

Como efeitos psicológicos da anorexia pode-se citar uma diminuição na capacidade de tomar decisões e no julgamento. Ocorrem também alterações no humor, como irritabilidade, depressão e ansiedade, além de apatia, reclusão e isolamento social.

Alguns pacientes abusam ainda de supressores de apetite, cujos possíveis efeitos incluem: insônia, mudanças no humor e irritabilidade. O uso indiscriminado desses medicamentos é associado à psicose, problemas neurológicos, falência renal, hemorragias cerebrovasculares e hipertensão.

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