A bulimia se caracteriza por uma perda de controle do indivíduo que o conduz à uma compulsão alimentar, onde uma enorme quantidade de alimento é englutida rapidamente, na maioria das vezes às escondidas. O episódio não visa apenas saciar uma fome exagerada, mas muitas vezes compensar um estado emocional descontrolado.
O número médio de calorias ingerido durante uma crise é de 3500, mas pode chegar a 15000 calorias.
A definição de compulsão alimentar é controversa em função da subjetividade para avaliar a quantidade de alimentos ou de calorias necessárias para configurar o excesso alimentar, por isso depende das características individuais de cada paciente e também do que ele mesmo considera um excesso para si. Esse fato torna muito importante o aspecto da sensação de perda de controle durante as compulsões, ou seja, a sensação de que o indivíduo não poderia evitar a compulsão ou interrompê-ma uma vez iniciada.
O ponto de partida, muitas vezes é “um pequeno regime”, adotado por não se sentir em forma, com o intuito de perder alguns quilinhos… Sim, a bulimia pode aparecer atualmente como a consequência, a mais ou menos longo prazo, das restrições alimentares impostas pela sociedade e adotadas pelo sujeito, vítima do terrorismo sociocultural do emagrecimento. O corpo defende seu peso, e nove vezes sobre dez encontramos episódios de regimes alimentares ha história desses pacientes. Tudo se passa como se toda a amputação de peso (ou de gordura corporal) secretasse em retorno uma contra-regulação visando em fim de conta o retorno ao peso inicial. Essa recuperação do peso perdido, meses ou anos após o início do regime, pode vir de forma urgente, impulsiva; seu objeto é o alimento, vivido algumas vezes até como uma droga.
A paciente cede e se põe a devorar os alimentos que restringiu para emagrecer. De natureza impulsiva, ela se controla mal e cai na tenteção de uma barra de chocolate ou outro alimento pronto ao consumo. Sem confiança em si mesma, ela se diz que, como caiu na tentação, é melhor agora consumir 2, 3, 4 ou ainda mais, pois amanhã terá que recomeçar o regime. Ela conclui, porém, que nes sm ritmo, a consequência será uns bons quilinhos a mais. Então surge a idéia (pela TV, por uma amiga ou memso alguém da família) que ela pode se fazer vomitar para apagar as marcar do seu crime. E a máquina infernal está lançada! Pois para poder vomitar mais eficazmente o produto de sua crise alimentar, será necssário lotar o estômago. E, depois de tudo, porquê se privar uma vez que ela já caiu na tentação? Ela se enche de alimentos para poder vomitar… e vomita tanto mais quanto está cheia. O pior de tudo é que conforme vai repetindo esse comportamento, ela ganha uma maior habilidade: quanto mais o tempo passa, mais facilmente ela vomita. Certas bulímicas conseguem realizar uma verdadeira ruminação, onde os alimentos chegam à boca sem esforço algum. Outras terão vômitos espontâneos: basta se curvar diante do vaso sanitário para que o conteúdo do estômago seja eliminado sem esforço. Às vezes uma pequena pressão no estômago é necessária, mas algumas são ainda obrigadas a enfiar os dedos na garganta para vomitarem a quantidade desejada.
Infelizmente isso não é tudo. Ainda pela baixa estima e pela preocupação de perfeição que essas jovens apresentam, elas querem ir adiante no controle da situação. Como estar segura de que vomitou tudo? A forma física é de extrema importância para elas, e o medo de engordar sempre presente, então elas vão utilizar outras estratégias para garantir a perda de peso: além dos vômitos provocados (mais provocados no início e mais espontâneos com o tempo), elas vão abusar de laxantes, mesmo de diuréticos. E como na anorexia, a hiperatividade física e os períodos de jejuns também poderão auxiliar no controle do peso.
Para confundir ainda mais a paciente, os ciclos de restrição, compulsão e purgação deterioram as sensações normais de fome e de saciedade. Alguns pacientes sentem fome constantemente, outros se dizem saciados todo o tempo. Outros ainda, referem que estão satisfeitos somente quando comem compulsivamente. Segundo eles, a fase inicial da compulsão é muito prazeirosa. Livres de restrição alimentar, eles se sentem relaxados, felizes e sua atenção totalmente voltada ao alimento os faz esquecerem dos problemas enfrentados durante o dia. Dizem que as compulsões os livram do stress, do tédio, da depressão, da ansiedade e da raiva, e que as crises podem ajudar a melhorar aquela sensação desconfortável que sentem quando chegam em casa do trabalho ou da escola, antes de dormir ou de começar a trabalhar ou estudar. Depois da crise vem a culpa, a humilhação, o mal estar: eles se sentem criminosos, sujos, humilhados, e na obrigação de fazer alguma coisa para neutralizar o mal que cometeram; por isso vomitam, consomem medicamentos, fazem exercícios loucamente ou voltam para o jejum.

CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS

As jovens bulímicas apresentam como características comuns uma silhueta normal e um pavor de engordar. Como na anorexia, o corpo é percebido, mesmo magro, como gordo e pesado demais, redondo e grosseiramente feminino. É no final da adolescência e no início da idade adulta que o sintoma aparece mais frequentemente. Neste momento da vida, o corpo está no centro das preocupações, e se torna uma espécie de referência para uma personalidade em formação e que não tem uma imagem de si própria definida. A impulsividade é uma outra característica das bulímicas. Fora das crises, ela pode se manifestar pelo consumo desenfreado de álcool e drogas, pela kleptomania ou distúrbio sexual.
A crise de bulimia favoriza os momentos depressivos pela autodepreciação que ela causa. Não é raro que tentativas de suicídio marquem a evolução da doença.

COMPLICACÕES ORGANICAS NA BULIMIA

Comparada à anorexia, a bulimia apresenta um menor número de complicações clínicas. Seus sinais e sintomas estão geralmente relacionados aos episódios de compulsão e vômitos, ou ao uso indiscriminado de diuréticos ou laxantes.
A hipertrofia, ou seja, o aumento da glândula parotida é consequência dos vômitos. Em alguns pacientes a deglutição é dificil e dolorosa, mas isso desaparece com a normalização dos hábitos alimentares. Dores na garganta podem ocorrer devido à ação do ácido do estômago, em contato com o tecido.
Há lesão do esmalte dental, descalcificação e aumento da incidência de cáries dentais. Apos 6 meses de purgação, a maioria dos pacientes já apresenta erosão dentária. Depois de 4 anos vomitando em média 3 vezes por semana, a maioria tera sérias erosões dentárias, descalcificação do esmalte dental e, eventualmente, erosão da dentina. Pacientes crônicos terão inevitavelmente dentes sensíveis, dolorosos, amarelos e careados. Os primeiros danos nos dentes são sutis e difíceis de se detectar por um profissional que não suspeita da prática de métodos purgativos.
Os pacientes que costumam vomitar devem ser orientados a não escovarem os dentes logo após o vômito, prática muito comum e que causa sérios danos permanentes ao esmalte dental, fragilizado pelo ácido gástrico. Para protegê-lo deve-se esperar várias horas para a escovação. Uma alternativa é fazer bochechos com soluções bucais.
Os vômitos causam também refluxo gastro-esofágico, esofagite e úlcera. O fato de colocar os dedos na garganta para forçar o vômito pode resultar no que chamamos de “sinais de Russel” – calosidades e contusões nos dorsos dos dedos e polegar, desencadeados pela pressão dos dentes nas mãos.
Alguns pacientes sofrem de dilatação aguda do estômago por causa da ingestão de quantidade exagerada de alimentos. Isso é reversível com o tratamento. Raramente pode ocorrer ruptura gástrica, que requer cirurgia imediata.
O problema mais comum e muito perigoso na bulimia é a oscilação nos níveis de potássio, cujas consequências ja foram abordadas.
Os métodos purgativos podem resultar em um ciclo de desidratação seguido por retenção de líquidos. A privação alimentar, o vômito e o uso de medicamentos purgativos conduzem a este estado, principalmente se ocorrerem simultaneamente. A resultante desidratação estimula um sistema orgânico a reter líquidos, o que pode vir a ser interpretado pela paciente como ganho de peso e levá-la a recomeçar a restrição e a purgação, piorando ainda mais o quadro. A desidratação é caracterizada por um aumento na sede e uma diminuição da excreção urinária. Os pacientes sentem fraqueza e vertigem.
O uso de laxantes pode prejudicar o tônus muscular do cólon, tornando o paciente cada vez mais dependente do medicamento, necessitando de doses sempre maiores para conseguir defecar. O uso de supressores de apetite, cujos efeitos já forma abordados na anorexia, também é adotado por alguns pacientes
Em adição a todos esses problemas, os bulímicos podem apresentam baixa estima, oscilações no humor e alta impulsividade, que pode se expressar em forma de uso de drogas ou álcool, cleptomania ou promiscuidade sexual.

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