Infelizmente, o número de crianças e adolescentes acima do peso está aumentando de forma assustadora, deixando os profissionais de saúde preocupados.
As investigações demonstram que a obesidade e o sobrepeso constituem o problema nutricional mais prevalente entre os escolares e adolescentes em todos os níveis socio-econômicos. E quanto mais tempo uma criança ficar acima do peso, mais provavelmente ela continuará neste estado durante a adolescência e na idade adulta; além dos 6 anos ou mais, o estado de excesso de peso não desaparece espontaneamente.
As seqüelas da obesidade infantil estão aumentando, e as complicações em longo prazo têm se antecipado.
A obesidade é a causa mais comum de crescimento anormal na infância. As meninas obesas comumente têm a puberdade e a menarca (início da menstruação) antecipadas. A puberdade está ocorrendo mais cedo entre as meninas do que no passado, e isso pode estar direta ou indiretamente relacionado a um aumento geral; no peso da população. O efeito da obesidade nos meninos é mais variável, podendo tanto antecipar quanto retardar a puberdade. A ginecomastia (aumento do tamanho das mamas) é um dos problemas mais comuns em meninos obesos.

A pouca ou falta de atividade é fator determinante na obesidade infantil. O controle de peso envolve o balanceamento da ingestão alimentar com a energia que se gasta nas atividades diárias. Apesar da dieta ser muito importante, baixos níveis de atividade física têm maior relação com a obesidade do que o consumo alimentar.
O fato de se ficar por muito tempo assistindo televisão não requer gasto energético e geralmente vem acompanhado por lanches ou alimentos de alto valor calórico. A Associação Americana do Coração (The Heart American Association) relata que, em média, as crianças assistem a 17 horas de televisão por semana. E nessa conta não é considerado o tempo que a criança passa jogando videogames ou no computador. Outro estudo concluiu que o risco de obesidade é 5 vezes maior em crianças que assistem a mais de 5 horas de televisão por dia, comparado às crianças que assistem de 0 a 2 horas por dia.
Segundo o relato de pesquisas gerais dos EUA, de 1996, aproximadamente metade dos jovens de 12 a 21 anos de idade não são vigorosamente ativos. A Universidade Americana de medicina Esportiva relata que, em função das más condições financeiras, apenas 1/3 das escolas oferecem educação física e que a maioria das crianças acham esportes muito competitivos e dispendiosos.
Estudos sobre obesidade familiar concluíram que os fatores genéticos e comportamentos adquiridos na família são importantes na determinação da obesidade. A criança descendente de uma pessoa obesa corre o risco de aproximadamente 40% de se tornar obesa; e na criança cujos ambos os pais são obesos esse risco aumenta para 80%. E a influência dos pais vai além. Uma mãe que aprecia pratos fartos e gordurosos acaba transmitindo suas preferências alimentares ao seu filho.
Fatores do tipo neuropsiquiátricos também têm sido considerados nas causas da obesidade. Muitos psiquiatras afirmam que por trás de um obeso sempre poderá existir um problema psíquico grave. Isso ainda pode ser agravado em nossa sociedade, uma vez que as crianças gordinhas sentem-se envergonhadas ou embaraçadas por causa do valor excessivo atribuído à aparência física e da visão comum de que a obesidade resulta de preguiça ou falta de força de vontade. Em muitas crianças e adolescentes, a comida constitui uma “válvula de escape”, resultando em uma maior ingestão de alimentos quando estão com ansiedade.
Um problema funcional ou orgânico dos núcleos hipotalâmicos cerebrais, onde se encontram os centros do apetite e da saciedade também pode levar a uma ingestão alimentar descontrolada.
A quantidade de tecido adiposo pode ainda ser influenciada por variações hormonais. A deficiência do hormônio de crescimento, o excesso de insulina, o excesso de hidrocortizona, os estrógenos e a deficiência de tiroxina estão relacionados com um aumento na gordura corporal. O hipotireoidismo, que pode ser acompanhado de uma distribuição de gordura regular, com atraso no crescimento estatural, ósseo e no desenvolvimento psicomotor também é uma das causa endógenas (orgânicas) da obesidade.
De qualquer forma, cerca de 90% das obesidade infantis correspondem a do tipo simples, caracterizada por uma maior distribuição de gordura corporal, regular e homogênea, em uma criança que cresce e se desenvolve de forma normal ou acelerada, com antecedentes de uma ingestão calórica aumentada e diminuição da atividade física.

No tratamento do excesso de peso infantil é importante notar que, exceto nos casos de obesidade severa, a perda de peso não é tão necessária quanto a manutenção do peso. Quanto menor a criança, mais pertinente se torna esta concepção. Se o peso é mantido, a criança pode crescer dentro se seu peso atual.
Para aquelas crianças que realmente necessitam de perda ponderal, é seguro emagrecer até 1 kg por mês. Nos casos de obesidade muito severa pode-se até perder mais do que isso, mas o tratamento deve ser monitorado de perto pelo pediatra e pelo nutricionista, para garantir um crescimento adequado e uma boa nutrição.
O controle de peso não é fácil em idade alguma, mas pode ser quase que impossível para crianças e adolescentes se forem motivo de brincadeiras desapropriadas dos familiares e amigos. A família inteira precisa passar a promover uma vida saudável de um modo que seja agradável para a criança. Os pais ou responsáveis precisam adquirir bons hábitos alimentares e atividades físicas.
A criança pode não esta motivada a perder peso, principalmente se é pressionada pela família, professores e amigos. Em alguns casos torna-se necessário um acompanhamento psicoterápico, que garanta a ela um apoio e oriente os pais ou responsáveis a como proceder no tratamento.

Uma dieta alimentar para a criança ou mesmo para os pais que não estiverem prontos para mudanças pode não somente ser uma perda de tempo, mas também tornar-se perigoso. Uma intervenção mal sucedida pode diminuir a auto-estima da criança e prejudicar esforços futuros para normalizar o peso. Se a criança pequena não estiver pronta para mudanças comportamentais, os pais podem modificar sozinhos a dieta e a atividade física.
O sucesso do tratamento da obesidade infantil deve se basear principalmente em um programa que inclua envolvimento familiar, modificações da dieta, planejamento de atividades e componentes comportamentais, incluindo a prática de exercícios físicos. Um estudo publicado no The American Journal of Clinical Nutrition, de junho de 1998, concluiu que o tratamento de crianças obesas tendo exclusivamente os pais como agentes de mudança mostrou resultados melhores que o tratamento individualizado de crianças. Neste estudo, somente os pais ou responsáveis foram orientados e o planejamento alimentar da família como um todo foi avaliado e modificado. Dessa forma, as crianças obesas não se sentiram marginalizadas e conseguiram um maior sucesso na perda de peso. Esta forma de abordagem nem sempre é possível, mas considera-se muito importante que toda a família participe sempre do processo de adequação alimentar, para que a dieta não se torne tão desagradavél para a criança e para que ela não tenha que se privar da companhia dos outros familiares durante as refeições.
O tratamento da criança obesa deve ser feito pelo médico em conjunto com o nutricionista e deve começar assim que a obesidade ou o sobrepeso for diagnosticado, pois o risco da criança permanecer obesa aumenta com a idade. Existem algumas modificações na rotina familiar que podem fazer uma grande diferença para ajudar a criança a emagrecer sem muito sofrimento:
– preparar as refeições de maneira que possam ser saboreadas por toda a família, para que a criança não se sinta excluída;
– servir as refeições em porções controladas, em vez de colocá-las em travessas, para evitar o consumo de grandes quantidades e a repetição dos pratos;
– fazer com que as porções pareçam maiores usando pratos menores e colocando grande quantidade de alimentos de baixo valor calórico, como alface, agrião, tomate, palmito;
– não preparar molhos ricos em gorduras e não colocar sobre a mesa maionese, requeijão, geléias, manteiga;
– controlar o ambiente doméstico a fim de que alimentos muito calóricos não estejam acessíveis;
– manter a geladeira sempre provida de frutas, leite e iogurte desnatados, hortaliças, legumes e gelatinas;
– não brigar ou criticar a criança à mesa, para que ela não desconte suas frustrações no prato de comida. Se ela se acostumar a comer demais por outras razões que não a fome, provavelmente continuará a fazer isso pelo resto da vida.
– enfatizar sempre o positivo, ou seja, dar uma maior importância ao que a criança pode comer, e não ao que ela não pode comer;
– elogiar sempre qualquer progresso que a criança estiver fazendo
– estimular a criança a praticar alguma atividade física, como andar de bicicleta, de patins, caminhar, nadar, jogar futebol, etc.
– nunca usar a comida como recompensa; somente atividades e brincadeiras com a família podem ser usadas para recompensar a criança, e nunca uma sobremesa doce ou uma batata frita;
– determinar qual alimento será oferecido e quando; e deixar que a criança decida se irá comer ou não;
– oferecer somente opções alimentares saudáveis. Por exemplo: deixe que a criança escolha entre uma fruta e um iogurte para o lanche, ao invés de escolher entre uma fruta e uma barra de chocolate.

Como a criança e o adolescente estão em um período de crescimento e desenvolvimento, não devem ser adotadas dietas muito restritas, que podem interferir nestes processos. Recomenda-se iniciar uma ingestão calórica normal, de acordo com a idade, com uma proporção balanceada dos nutrientes.

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