Os distúrbios alimentares são raros e muitas vezes ignorados em homens, negligenciados devido à sua infrequência.
A porcentagem de casos de anorexia em indivíduos do sexo masculino é muito baixa. Cerca de apenas 8% dos doentes são homens. Na bulimia esse número sobe para 15%, e no transtorno da compulsão alimentar periódica ultrapassa 20% (mas alguns autores falam de até 40%). Mas essa distribuição se refere à classificação estrita dos distúrbios. Estudos austríacos concluíram que os homens correm mais risco de desenvolver distúrbios alimentares subclínicos ou atípicos.
As pesquisas apontam a obesidade ou o sobrepeso infantil como um dos mais presentes fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares em homens, estando presente em cerca de 50% dos casos. Outro fator de risco, menos presente, é o homossexualismo, manifestado anteriormente ao distúrbio em cerca de 20% dos casos. Os grupos mais vulneráveis são as ocupações onde o peso e a forma corporal possuem um papel importante, como dançarinos, manequins, esportistas (jockers, corredores, nadadores, judocas, body-bilders).

Por outro lado, algumas condições especiais atuam como proteção contra esses distúrbios em homens. A puberdade se desenvolve mais tardiamente, proporcionando-os um maior tempo para o desenvolvimento de mecanismos intrapsíquicos e comportamentais de adaptação às mudanças pubertárias. Além disso, nesse período os homens têm sua massa muscular aumentada, e não o tecido adiposo, o que também aumenta o metabolismo. Há um papel protetor dos hormônios masculinos, pois a testosterona aumenta os níveis de atividade e agressividade. Finalmente, as pressões sociais para o emagrecimento são bem menos frequentes do que para as mulheres. Um estudo publicado no International Journal of Eating Disorders encontrou uma relação de 10:1 em anúncios sobre dietas e emagrecimento direcionados a mulheres e homens respectivamente.
Um distúrbio que vem sendo mais estudado em indivíduos do sexo masculino é a anorexia nervosa reversa ou dismorfia muscular. O paciente, nestes casos, se julga fraco e pequeno, mesmo quando apresenta na realidade um físico grande e musculoso, caracterizando um distúrbio da imagem corporal. Há uma preocupação exagerada com a dieta, rituais alimentares e exercício físico. Muitas vezes o quadro é associado ao abuso no consumo de anabolizantes androgênicos, o que acarreta riscos orgânicos, como: acne, tumores hepáticos, convulsões, intolerância à glicose, aumento de mau colesterol (LDL), diminuição do bom colesterol (HDL), atrofia testicular, ginecomastia, impotência sexual, parada cardíaca, além de quadros psiquiátricos, como psicoses, ansiedade, pânico, comportamento violento. Episódios depressivos podem ocorrer com a retirada das drogas.

Características clínicas

De um modo geral, as manifestações clínicas são similares às ocorridas em mulheres. As poucas diferenças na sintomatologia são abordadas a seguir:
O homem com anorexia tem seu distúrbio normalmente iniciado um pouco mais cedo que a mulher, com perda de peso mais significativa e com antecedentes de sobrepeso em 1/3 dos casos. Metade dos pacientes apresentam crises de bulimia, e há uma maior tendência ao excesso no exercício físico. Acontecem modificações hormonais e sexuais: a queda dos níveis da testosterona diminui a libido e enfraquece o espermograma, e nem sempre é totalmente revertida na renutrição: 10 a 20% dos pacientes conservam anormalidades testiculares após o tratamento. O distúrbio se instala frequentemente após uma separação (morte, mudanças), o indivíduo é inseguro e pouco auto-confiante.
Os casos de bulimia são geralmente manifestados mais tardiamente do que em mulheres. Os homens se sentem menos culpados pelos excessos alimentares e pode até chegar a apresentar crises em público. O volume de alimentos ingerido é proporcionalmente maior, e os pacientes apresentam um menor grau de insatisfação corporal, com um peso ideal esperado mais elevado. Há uma maior prevalência no abuso de álcool e drogas, e menor consumo de laxantes, diuréticos e remédios para emagrecer.
As complicações médicas mais comuns são: problemas circulatórios decorrentes da desidratação na anorexia (que ocorre menos nas mulheres pois elas tem mais gordura corporal, o que as protege da desidratação), maior perda óssea e uma diminuição ou perda das funções sexuais (causados pea queda dos níveis da testosterona)

Tratamento

Os princípios básicos não mudam: educação nutricional para a restauração de um peso normal, normalização dos hábitos alimentares, abordagens psicológicas para corrigir os pensamentos relativos ao peso, dieta e forma física e aumentar a auto-estima, tratamento farmacológico se necessário, tratamento de doenças associadas ou decorrentes da desnutição, reintegração social.
A equipe deve ser multidisciplinar e os casos mais graves encaminhados para internação.
Sinais de uma evolução problemática são:
– uma longa duração do distúrbio;
– perda intensa de peso;
– atividade sexual reduzida ou ausente;
– relacionamento conflitante com os pais durante a infância.
Contrariamente, o aparecimento recente do distúrbio e uma atividade ou desejo sexual presente são sinais de uma boa evolução.

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